Lo-li-ta. Dolores, Lolita.
A viúva alegre.

Batia os pés um contra o outro, e os óculos deslizavam no rosto. Não conseguia se centrar na sua máquina de escrever.

Apoiou os cotovelos na mesa, fitando, entediada, a neve que caía embranquecendo seus jardins, e estremeceu. Mesmo assim, não aumentou a potência do aquecedor, e levantou-se para pegar um capuccino.

Seus pezinhos brancos tocaram delicadamente o chão, que contrastava com o vermelho do seu robe e lingerie, e com o pelo do gato alaranjado, que dormia bem, no tapete azul.

Tropeçou.

Não, não tropeçou no gato, nem em seu longo robe. A mão masculina permanecia no corredor, com a aliança. A mão que um dia ela beijou, e hoje tropeçava, pisava indiferente. Primeiro a mão, depois o peito, barriga, desceu. O sangue encharcava o rosto rígido, como a neve lotava os quintais.

O outro corpo, repousava, espinha ereta e coração quieto, ao lado do corpo masculino, nu, e em seu peito, a marca vermelha e seus respingos eram a única joia que usava. Bela mulher.

Chutou o corpo, e adentrou a cozinha, com o sorriso rosto, que já havia se mostrado antes, no seu casamento. Uma jovem viúva alegre, que conversava, entre goles de capuccino, com as vozes da sua cabeça, que, desta vez, estavam certas.

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